domingo, 16 de agosto de 2009

Sociedade em rede e modo de desenvolvimento informacional: descrições sociológicas da sociedade contemporânea sob o capitalismo avançado*

Existe um considerável conjunto de descrições e análises das estruturas sociais emergentes na passagem do século vinte para o vinte e um que destacam o fato de as sociedades contemporâneas estarem sendo palco de extraordinárias transformações econômicas, políticas, culturais, sociais e tecnológicas. Nas últimas décadas do século vinte foram vários os autores que, sob diferentes perspectivas, estudaram esta transformação radical do modo de produção do social e identificaram nela uma ruptura com os padrões da sociedade industrial.
A tecnização, informatização e globalização da sociedade colocam o conhecimento em posição privilegiada como fonte de valor e de poder(1) e provocam profundas alterações na organização do trabalho, com a passagem do modelo taylorista-fordista para o modelo da especialização flexível(2). No modelo taylorista, característico da sociedade industrial, a organização do trabalho baseava-se numa rígida repartição das tarefas, numa nítida hierarquia de funções e numa forte divisão entre planejamento e execução (trabalho intelectual e trabalho manual). Já o paradigma informacional, característica central das sociedades baseadas no conhecimento, exige (e possibilita) uma nova organização do trabalho - com a integração sistêmica de diversas unidades, práticas gerenciais interativas, equipes responsáveis por um ciclo produtivo completo e capazes de tomar decisões, produção e utilização intensiva de informações, ênfase na capacidade de mudar rapidamente de funções (flexibilidade) - e uma profunda reorganização do processo educativo, das relações sociais entre gêneros e idades, e dos sistemas de valores(3).
Chamada de sociedade pós-industrial(4), sociedade informática(5), sociedade do conhecimento(6), sociedade tecnizada(7) ou sociedade em rede (8), a nova forma social que estes autores vislumbram sob estas transformações é a de uma sociedade globalizada, altamente tecnizada, com a ênfase da produção econômica recaindo sobre o setor de serviços e com utilização intensiva do conhecimento através das inovações tecnológicas oferecidas pela microeletrônica, pela informática e pelas novas tecnologias de comunicação. A seguir passo a apresentar as descrições das transformações da sociedade contemporânea feitas por 4 autores cuja leitura me parece imperiosa para quem quer entender a revolução que estamos atravessando (ou que nos atravessa) nestas últimas décadas do velho século e primeiras décadas de um novo milênio.
Adam Schaff publicou A sociedade informática" em 1985 apresentando-o como um livro de "futurologia sócio-política" no qual procura responder à pergunta "que futuro nos aguarda?" no que se refere às dimensões sociais do desenvolvimento, dando conta de uma visão de futuro para vinte ou trinta anos. Para Schaff, as três últimas décadas do século vinte, mostram as sociedades humanas em meio a uma acelerada e dinâmica revolução da microeletrônica na qual as possibilidades de desenvolvimento são enormes, como são também enormes os perigos inerentes a elas, não só nos aspectos tecnológicos mas também nas relações sociais, uma vez que as transformações da ciência e da técnica, com as conseqüentes transformações na produção e nos serviços deverão conduzir a transformações também nas relações sociais.
No seu entendimento a 2ª Revolução Industrial, em curso no final do século vinte, está conduzindo a uma ampliação das capacidades intelectuais do ser humano bem como à sua substituição por autômatos, aspirando a eliminação total do trabalho humano numa sociedade informática. Os três aspectos desta revolução tecnico-científica são, segundo Schaff, a microeletrônica, à qual está associada a revolução tecnológico-industrial; a microbiologia e a engenharia genética; e a revolução energética, com a procura por novas fontes de energia. Duas ordens de questões conduzem a investigação de Schaff: por um lado, as questões relacionadas com o sentido da vida, os sistemas de valores e estilos de vida, perguntando se a sociedade informática dará o passo para a materialização do ideal dos humanistas: o homem universal, cidadão do mundo com formação global e cultura internacional. Por outro, as questões da política e das relações de poder, perguntando qual será a repercussão da atual revolução industrial, com os avanços da informática, sobre o papel e as funções do Estado (centralização X descentralização; governo local X autogoverno). Aqui a questão central parece ser: quem deverá gerir este processo informático generalizado?
Mesmo que se possa concordar que mudanças na formação cultural das sociedade informatizadas poderão materializar o ideal de um cidadão universal bem informado e com formação global e que a informática pode abrir espaço para o exercício de formas de democracia direta em governos locais, é importante ter presente, alerta Adam Schaff, que a atual revolução tecnológica de modo algum nos conduz automaticamente a uma forma superior de democracia. Ao contrário, diz Schaff, se não houver a ação política dos partidos populares e das entidades organizativas dos trabalhadores, um desenvolvimento possível para a sociedade informática é a divisão social entre quem tem e quem não tem acesso à tecnologia (a atualmente chamada exclusão digital).
Já Alvin Toffler, com uma visão bastante otimista sobre o potencial e as virtudes da tecnologia, descreve em Powershift, de 1990, a ascensão de um novo sistema de meios de comunicação, inseparável de um novo sistema de criação de riqueza. Para Toffler, “numa economia baseada no conhecimento, o problema político interno mais importante não é mais a distribuição (ou redistribuição) da riqueza, mas da informação e dos meios de informação que produzem riqueza”(Toffler, 1990:389). Segundo o autor, já é possível reconhecer profundas tensões sociais provocadas pela introdução desta nova forma de economia, em especial a “divisão da população em inforrica e infopobre” (Toffler, 1990:384), sendo que as possibilidades de superação dos “problemas relacionados com a maneira pela qual o conhecimento é disseminado na sociedade” (Toffler, 1990:387) passam especialmente pela articulação do sistema educacional com o sistema de meios de comunicação e pelo completo desenvolvimento dos princípios da interatividade, mobilidade, conversabilidade, conectividade, ubiqüidade e globalização, considerados por ele como os princípios definidores do sistema de meios de comunicação do futuro.
Numa perspectiva mais próxima da de Castells, inclusive compartilhando o mesmo tipo de preocupação metodológica, Lucília Machado examina com rigor as transformações tecnológicas e gerenciais/organizacionais do final do século passado, ainda que com as limitações decorrentes da dimensão de um artigo. Segundo Machado(9), estamos observando a emergência de um novo padrão internacional de competitividade capitalista, caracterizado pela redefinição do modelo de indústria, a expansão do terciário e alterações na estrutura de empregos, nas relações trabalhistas, na estrutura ocupacional e nas definições de trabalho qualificado e trabalho desqualificado, tudo isso resultando em uma mudança substancial no padrão de exploração da classe trabalhadora em escala mundial(10).
Conforme Machado, o atual padrão de exploração da força de trabalho - resultante das modificações na base técnica provocadas pela introdução da microeletrônica e da informática - baseia-se no trabalho flexível e integrado. Tornado possível pela versatilidade dos equipamentos, passíveis de reprogramação via software o trabalho flexível e integrado implica na habilidade para o desempenho de várias funções simultâneas e conexas e na intercambialidade dentro do coletivo de trabalho e apresenta novas exigências aos trabalhadores, como a capacidade de seleção, tratamento e interpretação de informações, comunicação e integração grupal, a antevisão de problemas, a capacidade de resolução de imprevistos, a atenção e a responsabilidade, além das variáveis de tipo comportamental como abertura, criatividade, motivação, iniciativa, curiosidade e vontade de aprender e de buscar soluções.
As mudanças na organização do trabalho e a introdução de novas tecnologias de gestão e de produção exigem um novo estilo de trabalhador, que necessita de habilidades gerais de abstração, comunicação e integração. Estas habilidades são próprias de serem aprendidas na escola durante a instrução regular, e esta é a raiz do recente interesse das classes dominantes pela qualidade escolar, ao contrário do período anterior ao esgotamento do padrão taylorista-fordista, no qual a educação desempenhava um papel periférico, pois o trabalhador não precisava de grandes conhecimentos técnicos ou de habilidades especiais, sendo preparado na própria linha de produção através do treinamento.
Manuel Castells apresenta em A sociedade em rede uma importante contribuição para o debate sobre a morfologia social das sociedades de tecnologia avançada neste início de novo século. Fundamentando-se em amplo conjunto de informações empíricas e numa refinada teoria sociológica, Castells descreve a sociedade contemporânea como uma sociedade globalizada, centrada no uso e aplicação de informação e conhecimento, cuja base material está sendo alterada aceleradamente por uma revolução tecnológica concentrada na tecnologia da informação e em meio a profundas mudanças nas relações sociais, nos sistemas políticos e nos sistemas de valores.
Para examinar a complexidade da "nova economia, sociedade e cultura em formação" (Castells, 1999:24) Castells utiliza como ponto de partida a revolução da tecnologia da informação, por sua "penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana" (p. 24), e alerta que "devemos localizar este processo de transformação tecnológica revolucionária no contexto social em que ele ocorre e pelo qual está sendo moldado" (Castells, 1999: 24), como é de praxe na boa sociologia praticada pelos clássicos.
A contribuição de Castells à discussão apresenta quatro aspectos principais: a centralidade da tecnologia da informação; o refinamento da teoria sociológica, com a proposição da articulação do conceito clássico de modo de produção à noção, por ele desenvolvida, de modo de desenvolvimento; a compreensão do papel do Estado no desenvolvimento econômico e tecnológico, deixando de lado a visão reducionista e ideologizada das perspectivas liberais do Estado mínimo; e a caracterização da sociedade informacional como uma sociedade em rede, com a morfologia social definida por uma topologia em forma de rede. Vale a pena dedicarmos alguns parágrafos a cada um dos tópicos apontados.
Sobre a sua compreensão do papel do Estado é suficiente citar uma frase contida na conclusão de uma erudita e esclarecedora digressão sobre o papel do Estado para o desenvolvimento industrial da Europa após o século 16 e para a não industrialização da China na mesma época. Ao comparar os dois processos Castells destaca que
"o que deve ser guardado para o entendimento da relação entre a tecnologia e a sociedade é que o papel do Estado, seja interrompendo, seja promovendo, seja liderando a inovação tecnológica, é um fator decisivo no processo geral, à medida que expressa e organiza as forças sociais dominantes em um espaço e uma época determinados" (Castells, 1999: 31).

Ao observar que a tecnologia da informação foi essencial para o processo de reestruturação do sistema capitalista a partir dos anos oitenta, Castells mostra que o desenvolvimento tecnológico foi moldado pela lógica e pelos interesses do capitalismo avançado, ainda que não tenha se restringido à expressão desses interesses, mesmo porque também o estatismo (Castells entende que há dois sistemas de organização social presentes em nosso período histórico: o capitalismo e o estatismo) tentou redefinir os meios de alcançar seus objetivos estruturais por meio da tecnologia da informação. O importante a reter aqui é a existência de uma inter-relação empírica entre modos de produção (capitalismo, estatismo) e modos de desenvolvimento (industrialismo, informacionalismo), a qual não acaba, porém, com a distinção analítica entre os conceitos. A abordagem de Castells assume uma perspectiva teórica clássica da sociologia, postulando "que as sociedades são organizadas em processos estruturados por relações historicamente determinadas de produção, experiência e poder" (Castells, 1999: 33). A produção é organizada em relações de classe que estabelecem a divisão e o uso do produto em termos de investimento e consumo. A experiência se estrutura pelas relações entre os sexos (até agora organizada em torno da família)e o poder tem como base o Estado e o monopólio do uso da violência.
É neste quadro teórico que Castells situa a nova estrutura social, que "está associada ao surgimento de um novo modo de desenvolvimento, o informacionalismo. É muito interessante a discussão teórica iniciada aqui sobre as diferenças entre sociedade da informação e sociedade informacional (Castells adota esta última, por analogia ao significado de sociedade industrial), mas não tenho espaço para apresentá-la. Restrinjo-me a indicar aqui a noção de modo de desenvolvimento: "procedimentos mediante os quais os trabalhadores atuam sobre a matéria para gerar o produto, em última análise, determinando o nível e a qualidade do excedente" (Castells, 1999:34). Cada modo de desenvolvimento é definido pelo elemento que promove a produtividade. Assim, o que define o modo informacional de desenvolvimento é a "ação de conhecimentos sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade"(Castells, 1999: 35), o que, segundo o autor, nos conduz a um novo paradigma tecnológico, baseado na tecnologia da informação.
A essa altura Castells apresenta como característica importante da sociedade informacional, ainda que não esgote todo o seu significado, "a lógica de sua estrutura básica em redes, o que explica o uso do conceito de 'sociedade em rede'" (Castells, 1999: 46, nota 33). O surgimento da sociedade em rede torna-se possível com o desenvolvimento das novas tecnologias da informação que, no processo, "agruparam-se em torno de redes de empresas, organizações e instituições para formar um novo paradigma sociotécnico" (Castells, 1999: 77) cujos aspectos centrais, representam a base material da sociedade da informação. Assim como Toffler(12) apresenta as seis caraterísticas do novo sistema de meios de comunicação que, na sua análise, suportam e dão origem a um novo sistema de produção e distribuição de riqueza e de poder, Castells nos mostra os cinco aspectos centrais do novo paradigma: a informação é matéria-prima; as novas tecnologias penetram em todas as atividades humanas; a lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações usando essas novas tecnologias; a flexibilidade de organização e reorganização de processos, organizações e instituições; e, por fim, a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, conduzindo a uma interdependência entre biologia e microeletrônica (Castells, 1999: 78-9).
Para finalizar é preciso ainda apresentar, mesmo que rapidamente, o conceito de rede trabalhado por Castells. O conceito de rede parte de uma definição bastante simples - "rede é um conjunto de nós interconectados" (p. 498)- mas que por sua maleabilidade e flexibilidade oferece uma ferramenta de grande utilidade para dar conta da complexidade da configuração das sociedades contemporâneas sob o paradigma informacional. Assim, diz Castells, definindo ao mesmo tempo o conceito e as estruturas sociais empíricas que podem ser analisadas por ele,
"redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho). Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio" (Castells, 1999: 499)

Esta definição dá ao autor uma ferramenta poderosa para suas análises e observações e lhe permite apresentar alguma conclusões provisórias sobre os processos e funções dominantes na era da informação, indicando que "a nova economia está organizada em torno de redes globais de capital, gerenciamento e informação" (Castells, 1999: 499) e que "os processos de transformação social sintetizados no tipo ideal de sociedade em rede ultrapassam a esfera das relações sociais e técnicas de produção: afetam a cultura e o poder de forma profunda" (Castells, 1999: 504).


Notas
1. TOFFLER, Alvin. Powershift. RJ: Record, 1990
2. MACHADO, Lucília. "Sociedade industrial X sociedade tecnizada". Universidade e Sociedade, ano III, n. 5, julho 1993, p. 32-37.
3. SCHAFF, Adam. A sociedade informática. São Paulo: Brasiliense, 1995
4. LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna, Lisboa: Gradiva, s.d.
5. SCHAFF, Adam. Op. cit.
6. TOFFLER, Alvin. Op. cit.
7. MACHADO, Lucília. Op. cit.
8. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
9. MACHADO, Lucília. "Sociedade industrial X sociedade tecnizada". Universidade e Sociedade, ano III, n. 5, julho 1993, p. 32-37
10. Para Machado, op. cit., a concorrência intercapitalista em torno da acumulação de tecnologia exige contínuos ajustamentos da base técnica da produção às determinações das necessidades de valorização do capital: a competitividade requer contínuo aumento da produtividade pelo aumento do controle e da racionalização do trabalho e pela redução dos custos de cada unidade produzida. Contudo, diz a autora, a posterior (e cada vez mais rápida) generalização da inovação tecnológica conduz à perda relativa da rentabilidade, que pode provocar uma nova era de crise de acumulação em virtude do esgotamento da base técnica em uso. Na busca de uma mais-valia relativa extraordinária, completa Machado, a concorrência intercapitalista força a obsolescência do padrão tecnológico vigente e patrocina novas inovações tecnológicas, as quais exigem o aumento da composição orgânica do capital, ou seja, maior investimento em capital constante em detrimento do capital variável, o que, em última instância, significa aumento do desemprego
11. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
12. Op. cit.



Referências bibliográficas
1. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
2. LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna, Lisboa: Gradiva, s.d.
3. SCHAFF, Adam. A sociedade informática. São Paulo: Brasiliense, 1995
4. TOFFLER, Alvin. Powershift. Rio de Janeiro: Record, 1990
5. MACHADO, Lucília. "Sociedade industrial X sociedade tecnizada". Universidade e Sociedade, ano III, n. 5, julho 1993, p. 32-37.


* Texto de trabalho, escrito como roteiro para aulas da disciplina de sociologia no curso de ciências sociais da Unisc.
** Caco Baptista é sociólogo, mestre em Ciências Sociais, com especialização em Antropologia Social e em Administração Universitária. Doutorando em sociologia no PPGS-UFRGS. Professor do departamento de Ciências Humanas da UNISC. caco@unisc.br

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