quarta-feira, 11 de março de 2009

Cinema e realidade. Quantos mundos existem num olhar?

Estas notas têm origem nas emoções e pensamentos que me foram despertadas pelo documentário francês Ser e ter, um filme de grande beleza que faz um retrato muito sensível do cotidiano de uma escola multi-seriada no interior da França no final do século XX.
Este filme (exibido pela Associação dos Amigos do Cinema em 2005) ganhou premios de melhor montagem e teve indicações para o prêmio de melhor direção em diversos festivais na Europa e nos permite muitos níveis de discussão. Por exemplo, se quisermos discuti-lo como obra cinematográfica, poderíamos refletir sobre a opção de enquadramento, a posição da câmera, os planos, os cortes. Ou, se quisermos debater sua temática ou seu objeto, aquilo que ele mostra, poderíamos nos deter na discussão do sistema educacional, da classe unidocente ou multisseriada, da relação professor-aluno. Podemos nos deter nos alunos: quem são estas crianças, por que estão nessa escola, o que pensam, o que desejam. Podemos ainda usar o filme para pensar a nossa realidade brasileira: os professores das nossas escolas, as nossas escolas, as nossas crianças.
Mas como o filme se destaca pela direção e pela montagem, penso que este é um bom tema para pensar. Direção, montagem, edição. Que realidade é mostrada através desses mecanismos? Por definição, um documentário não é ficção. Ou seja, um documentário documenta a realidade. Mas que realidade ele documenta? E com que fidelidade é mostrada essa realidade?
Indo além, podemos perguntar quanta direção, montagem e edição existem não só num documentário mas nos telejornais, novelas e filmes de ficção? E nos livros didáticos? E nos editoriais? E nas falas dos palestrantes? E nas políticas governamentais? Então, que mundo é esse que nos é mostrado? Que realidade é essa a que temos acesso?
Paulo Freire, o grande mestre da nossa educação dizia que "nós vivemos no mundo e com o mundo" e com isso queria alertar para a necessidade de refletirmos sobre o mundo para poder mudá-lo no sentido da emancipação. Pois então, que mundo é esse que é o nosso mundo, o mundo em que vivemos?
Conforme a já clássica afirmação do sociólogo alemão Niklas Luhmann, “o que sabemos sobre o mundo, o sabemos através dos meios de comunicação para as massas”. Ou seja, os meios de comunicação (o cinema entre eles) servem, entre outras coisas, para trazer o mundo até nós. Mas que mundo é esse? Podemos confiar na realidade do mundo que os meios de massas nos apresentam? Para Luhmann, “sabemos tanto graças aos meios de comunicação de massas, que não podemos confiar em tal fonte”.
E então? O que é o mundo? O que é a realidade? Podemos alcançar a verdade? Podemos confiar no que vemos e ouvimos? Podemos acreditar no que nos contam e mostram?
Vamos começar de novo: vivemos no mundo e com o mundo. Mas que mundo é esse? Ora, é o mundo que conhecemos, o mundo que construímos ao conhecer e que é, ao mesmo tempo, o nosso entorno, o mundo com que nos acoplamos, que é trazido até nós, até o universo do nosso conhecimento, até o âmbito da nossa percepção. Como assim? Simples: não podemos estar em todos os lugares nem podemos ver todos os acontecimentos (não somos deuses, concordam?). Então, alguém precisa nos contar as coisas, nos relatar estes acontecimentos, nos reportar o que acontece nos mais diversos lugares. Os meios de comunicação, o cinema entre eles, fazem isso muito bem. Mas que acontecimentos eles nos trazem, que mundo eles nos mostram, que verdade eles nos contam? Qual é a realidade que vemos através das lentes dos meios de comunicação?
O mundo que nos é trazido, que conhecemos e a partir do qual refletimos, aprendemos, formamos opiniões, é um mundo que nos chega editado. Ou seja, o mundo que chega até nós passa por dezenas, centenas, talvez milhares de filtros. Ele percorre um trajeto no qual é redesenhado, reorganizado, remontado através desta diversidade de filtros.
Esses filtros – o rádio, a TV, o jornal, o cinema, nossos vizinhos e amigos, todos aqueles que nos contam coisas, que nos relatam acontecimentos, eventos, fatos – fazem o que? Esses filtros, que selecionam o que vamos ouvir, ver ou ler, fazem a montagem do mundo que conhecemos. Ou seja, o mundo é editado e é assim que ele chega a todos nós.
Esta edição – que nos mostra o mundo que conhecemos, o mundo a que temos acesso – obedece a interesses variados: econômicos, políticos, religiosos, estéticos, de valores, etc.
Vamos deixar bem claro: editar é construir uma realidade a partir de supressões ou acréscimos em um acontecimento. Ou, em muitos casos, apenas pelo destaque de uma parte em detrimento de outra. Ao editarmos a realidade, aumentamos um ponto, diminuímos outro, iluminamos aqui, escurecemos ali. Editar é reconfigurar alguma coisa, dando-lhe um novo significado, atendendo a determinado interesse, buscando um determinado objetivo, fazendo valer um determinado ponto de vista, assumindo uma determinada perspectiva.
Nesta perspectiva, segundo o ponto de vista que estou assumindo aqui, um documentário, assim como uma notícia ou uma reportagem, têm um aspecto de ficção, isto é, de construção e reconstrução da realidade.
No caso do cinema, que foi o nosso ponto de partida, a imagem que chega a nós como espectadores é a imagem tomada pela câmera e tem o ponto de vista de um autor, seja ele o roteirista, o diretor ou o produtor.
Quer dizer, um documentário é uma visão da realidade mas não é a realidade, não é toda a realidade, não é a realidade em todos os seus aspectos e em toda a sua complexidade. E não poderia ser diferente disso. Não somos deuses e não podemos ter acesso a todas as diferentes facetas da realidade. Pelo menos, não ao mesmo tempo.
Assim, é fundamental, para termos condições de conhecer melhor o mundo, que possamos desvendar os mecanismos usados em sua edição. Que mundo é esse que nos é mostrado? O que foi amplificado? O que não foi mostrado ou foi reduzido? Que interesses e que objetivos levaram a destacar este ponto de vista?
No caso dos meios de comunicação, entre eles o cinema, somos todos alunos. Eles são a fonte primeira que educa a todos os educadores: pais, professores, autores, etc. Por isso precisamos procurar entendê-los bem e saber ler criticamente o que eles nos mostram. Só assim poderemos trabalhar adequadamente estes meios em nossas atividades educacionais de modo a conseguirmos percorrer o caminho que vai do mundo que nos entregam pronto, editado, até a construção de um mundo em que todos possam desenvolver plenamente o seu potencial criativo e a sua capacidade de invenção (quer chamemos a isso de tornar-se sujeito, exercer a cidadania ou dar sentido à existência).
As possibilidades de reflexão e debate são múltiplas. Se ficarmos pensando em tudo que poderíamos discutir não começaremos nunca. É preciso tomar uma decisão, fazer uma escolha, mesmo sabendo que ao fazer determinada escolha estamos deixando de lado inúmeras outras possibilidades. Quantos mundos existem num olhar? Qunatos mundos cabem numa tela de cinema? Quantos outros mundos nos são sonegados pela mesmice do circuito comercial de cinema e de televisão?
Estas perguntas todas ao longo do texto apontam para a importância de um trabalho de reflexão sobre a educação e os meios de comunicação e provocam outras tantas indagações: que mundo estamos mostrando a nossas crianças? Nossas escolas e nossos professores e professoras facilitam (e estimulam) o acesso de seus alunos à diversidade de produção cultural existente no mundo? Que acesso tem nossos estudantes à multiplicidade de visões de mundo disponíveis no campo das artes e da cultura?
Neste contexto cabe destacar a importância de um trabalho como o que vem sendo realizado em nossa cidade já há seis anos pela Associação dos Amigos do Cinema, seja em suas sessões semanais das sextas-feiras – nas quais temos a oportunidade de assistir a produções de países como China, Irã, Índia, Taiwan, Argentina, Brasil e tantos outros – seja no seu projeto “A escola vai ao cinema”, que dá às escolas participantes a oportunidade de apresentar seus alunos a filmes que não passam nas salas comerciais nou na televisão e que não se encontram nas prateleiras das locadoras. Procure saber mais. Acesse o blogue http://amigosdocinema.blogspot.com e veja como funciona um dos mais tradicionais cineclubes do Rio Grande do Sul.

Caco Baptista é sociólogo, professor da Unisc e
presidente da Associação dos Amigos do Cinema de Santa Cruz do Sul.

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