terça-feira, 3 de março de 2009

A sociedade como sistema: a abordagem teórica de Niklas Luhmann *

O que é um sistema? A sociedade pode ser entendida como um sistema? Que tipo de sistema? Que vantagens heurísticas nos traz a observação da sociedade como um sistema? Estas questões estão no centro das preocupações da "theory of autopoietic social systems" (Luhmann, 1990) desenvolvida pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann. Para Luhmann a discussão atual da teoria dos sistemas reúne experimentos teóricos originários de disciplinas muito diferentes, abarcando da biologia à robótica, da inteligência artificial à psicologia, sendo a contribuição da sociologia ainda bastante discreta ou desatualizada (Luhmann, 1997a:38-39). Diante desse quadro seu interesse é "encontrar descobertas e invenções conceituais feitas neste gigantesco domínio da teoria dos sistemas e transferi-las para o campo da sociologia" (Luhmann, 1997b:49). Luhmann acredita que este empreendimento pode criar novos estímulos ao pensamento sociológico, especialmente pela colocação de questões como as seguintes:
Como podem os sistemas sociais serem concebidos como sistemas fechados que só podem operar de forma auto-referencial? Quais são, para esses sistemas, os elementos últimos, não mais passíveis de serem decompostos? Como é possível explicar que sua autopoiésis funciona sem contato cognitivo com o ambiente, mas com acoplamento estrutural a ele e pode ser evolutivamente exitosa? É o acoplamento estrutural a um ambiente não acessível cognitivamente um conceito com o qual se pode esclarecer a relação entre sistema social e consciência ou entre sistema social e indivíduo? (Luhmann, 1997b:57)
Para dar conta destas questões Luhmann esforçou-se por desenvolver uma teoria geral dos sistemas sociais, compreendendo-os como sistemas de comunicação autopoiéticos, conforme pode-se verificar na sua obra de síntese teórica, Soziale Systeme: Grundriß einer allgemein Theorie (Luhmann, 1995), publicada na Alemanha em 1984.
A partir da distinção entre “máquinas triviais” e “máquinas não-triviais”1 elaborada por Heinz Von Foerster, do conceito de autopoiésis desenvolvido por Humberto Maturana e Francisco Varela e do conceito de forma desenvolvido por Norman Spencer Brown, Luhmann se propõe a desenvolver uma teoria geral dos sistemas sociais com base no conceito de sistemas auto-referenciais operacionalmente fechados - “systems that have the ability to stablish relations with themselves and to differentiate these relations from relations with their environment” (Luhmann, 1995:13).
Como um resultado teórico importante deste período Luhmann destaca a compreensão de que operações auto-referenciais só podem ocorrer num ambiente e com relação a um ambiente, o que permitiu uma ruptura fundamental com o esquema tradicional do todo e suas partes, substituído pela diferença entre sistema e ambiente (Luhmann, 1995, 1997a, 1997b, 1997c).
Considerando que todas as inovações importantes da teoria de sistemas a partir da incorporação da idéia de sistemas auto-referenciais referem-se à diferença sistema-ambiente - “there is agreement within the discipline today that the point of departure for all systems-theoretical analysis must be the difference between system and environment” (Luhmann, 1995:16) - Luhmann identifica uma tendência no sentido do estabelecimento de um novo paradigma na teoria dos sistemas: a teoria dos sistemas auto-referenciais operacionalmente fechados (Luhmann, 1995:12-15; 1997c:62-66).
Como conseqüência da mudança de paradigma na teoria dos sistemas, aquilo que havia sido concebido como diferença entre todo e parte precisou ser reformulado como diferença entre sistema e ambiente, nos termos de uma “theory of system differentiation” (Luhmann, 1995:1-11).
A noção de diferenciação é central para a compreensão da sociedade na perspectiva da teoria dos sistemas sociais autopoiéticos. Conforme Luhmann, os sistemas sociais, como de resto qualquer sistema autopoiético, desenvolvem-se através do tempo graças à sua capacidade de diferenciação. Assim, para lidar com um ambiente “hipercomplexo” os sistemas sociais precisam ampliar sua complexidade interna, o que fazem pela replicação, dentro do sistema, da diferença sistema-ambiente:
“system differentiation is nothing more than the repetition of system formation within systems. Further system/environment differences can be differentiated within systems. The entire system then acquires the function of a ‘internal environment’ for these subsystems, indeed, for each subsystem in its own specific way. (...) Therefore system differentiaton is a process of increasing complexity that greatly affects what can be observed as the unity of the entire system (Luhmann, 1995:18).
Com a noção de “system differentiation” Luhmann articula a teoria dos sistemas sociais auto-referenciais a uma teoria da evolução (Knodt, 1995:xxxv), o que lhe permite descrever o processo de modernização nos termos de uma transição de uma sociedade estratificada para uma sociedade diferenciada funcionalmente. No curso desta transformação, que se completou em torno do final do século dezoito, o mundo “monocontextural” e hierarquicamente ordenado da sociedade pré-moderna foi substituído por um mundo “policontextural”, no qual o esforço de reprodução da sociedade foi distribuído entre uma pluralidade de sistemas não redundantes – a economia, a arte, a ciência, a política, a lei, a educação – cada qual operando com base em seu próprio código específico. A continuidade do processo evolutivo da sociedade moderna através da diferenciação funcional, vai originar entre outros, o sistema educacional e, internamente a ele, o subsistema de educação superior e todos os seus subsistemas.
Luhmann, portanto, compreende a sociedade moderna como um complexo sistema de comunicações que se diferencia internamente em uma rede de sub-sistemas sociais interconectados que se reproduzem por meio de operações específicas próprias, através das quais cada sub-sistema observa a si próprio e ao ambiente. É importante ressaltar que o quer que seja que o sistema observe isto será sempre marcado por sua perspectiva única e específica e pelos conseqüentes “pontos cegos” derivados das distinções particulares que cada sistema utiliza para suas observações2.

Autopoiésis
Outra importante mudança na teoria geral dos sistemas foi a introdução do conceito de autopoiésis, criado pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, para caracterizar as operações recursivas dos sistemas auto-referenciais. Segundo Maturana sistemas autopoiéticos são
networks of productions of components that recursively, through their interactions, generate and realize the network that produces them and constitute, in the space in which they exist, the boundaries of the network as components that participate in the realization of the network (Maturana apud Luhmann, 1990:3)
Conforme Luhmann, ao sugerir tratar sistemas vivos como sistemas autopoiéticos, Maturana e Varela apresentam uma inovação teórica que
consiste na transposição do conceito de auto-organização do nível das estruturas para o nível dos elementos, ou seja, (...) tudo o que funciona como unidade para um sistema (estruturas, elementos, mas também o próprio sistema e o ambiente do sistema) precisa ser produzido através do próprio sistema (Luhmann, 1997c: 66).
Como só existem através da diferenciação com ambiente, os sistemas auto-referenciais não podem utilizar suas próprias operações para fazer contatos com o ambiente. Mais ainda, os sistemas autopoiéticos não podem importar nenhum elemento do ambiente, precisando produzir eles próprios, através de diferenciações internas, todas as unidades e elementos de que necessitam para as suas operações (conforme o conceito de fechamento operacional). No entanto, como diz Luhmann, obviamente os sistemas autopoiéticos "operam num mundo sem o qual não poderiam existir e todas as suas operações pressupõem, a cada momento, um acoplamento estrutural a este mundo" (Luhmann, 1997b: 53)3.
Portanto, a noção de acoplamento estrutural, decorrência obrigatória da própria auto-referência, é o que dá consistência à teoria dos sistemas autopoiéticos: o fechamento operacional característico da reprodução autopoiética torna-se compatível com a existência de interdependências regulares entre os sistemas e o ambiente através do acoplamento estrutural, quando "os efeitos do ambiente aparecem no sistema como informação e podem ser processados nele como tal" (Luhmann, 1997a: 42).
Contudo, a adaptação do conceito de autopoiésis para outros campos fora do domínio da biologia encontra fortes obstáculos. Conforme Luhmann, o termo autopoiésis, tendo sido inventado como uma definição de vida, tem uma origem claramente biológica e sua extensão para outros campos geralmente foi feita sobre premissas equivocadas e abordagens questionáveis (Luhmann, 1990: 1).
Para Luhmann, não há nada na definição de Maturana para os sistemas autopoiéticos que nos obrigue a restringi-la ao campo da biologia, mas não se pode obscurecer as importantes diferenças que existem entre sistemas vivos e sistemas sociais. Ou seja, se é fato que podemos descrever sistemas psíquicos e sistemas sociais como sistemas autopoiéticos, não devemos nos apressar e passar a concebê-los como sistemas vivos. Na verdade, diz Luhmann, os sistemas vivos são apenas um tipo específico de sistemas autopoiéticos, o que aponta a necessidade de uma teoria geral de sistemas autopoiéticos que evite referências que sejam verdadeiras apenas para sistemas vivos e propõe uma abordagem multi-nível que permita distinguir sistemas vivos, sistemas psíquicos e sistemas sociais como diferentes espécies de sistemas autopoiéticos, que têm, respectivamente, a vida, a consciência e a comunicação como operação autopoiética básica.
Luhmann, portanto, propõe abstrair o conceito de autopoiésis de suas conotações biológicas através da distinção entre sentido e vida como diferentes espécies de organização autopoiética e indica a necessidade de distinguir, no conjunto de sistemas baseados no uso de sentido, aqueles cuja operação autopoiética é baseada na consciência (sistemas psíquicos) e aqueles cuja operação tem por base a comunicação (sistemas sociais) (Luhmann, 1990: 2).
Esta distinção, porém, traz outro problema para a tentativa de aplicar a teoria autopoiética aos sistemas sociais: se os seres humanos são os elementos constituintes de um sistema social, como pode este sistema ser considerado auto-produtor de seus próprios elementos se está claro que a sociedade não produz as individualidades biológicas?.
Luhmann oferece uma resposta radical para o problema: define os sistemas sociais como sendo realizados no domínio das comunicações e procura desenvolver uma teoria dos sistemas sociais que dê conta da sua especificidade de sistemas autopoiéticos cuja operação de auto-reprodução tem por base a comunicação. Ao descrever a sociedade como um sistema social autopoiético cuja operação fundamental é a comunicação, Luhmann exclui os seres humanos da sociedade:
à sociedade pertence apenas aquilo que no processo de comunicação é tratado como comunicação, isto é, aquilo que em referência recursiva a outras comunicações é produzido como operação do sistema. (...) Todo o resto, especialmente a existência corpórea e psíquica dos indivíduos e também seu comportamento perceptível, naqueles aspectos que não são tratados como comunicação, permanece como ambiente do sistema (Luhmann, 1997c:70).
Claramente anti-humanista, a abordagem de Luhmann, contudo, concede um lugar importante para os humanos na análise dos sistemas sociais. Como já referido anteriormente, a teoria dos sistemas não foca um objeto específico e sim a diferença sistema-ambiente, que tem dois lados e é produzida pelo próprio sistema através de sua própria operação:
no caso em questão, trata-se dos dois lados de uma forma, a forma do social. Para a teoria da sociedade o ser humano é o outro lado, e na sociedade e em suas comunicações, ele está continuamente presente através da diferenciação entre auto-referência e referência externa (Luhmann, 1977c: 71).
Ao propor que apenas a comunicação é necessária e inerentemente social e que os sistemas sociais são redes cujos elementos constituintes são comunicações produzidas e reproduzidas recursivamente por estas redes e que não podem existir fora delas (Luhmann, 1990:3-6), Luhmann propõe uma revolução conceitual na sociologia, pois se o processo que constitui o domínio social como uma realidade social é um processo de comunicação (Luhmann, 1995:138-39), a condição para explicar os níveis operativos do sistema deixa de ser uma teoria da ação, como em Weber, Parsons e Habermas, e passa a ser uma teoria da comunicação (Luhmann, 1990: 6).

Comunicação
Esta passagem exige um refinamento do conceito de comunicação. Para Luhmann a metáfora da comunicação como transmissão de mensagens ou informações de um emissor para um receptor deve ser evitada. Ele considera que esta metáfora, além de enfatizar em demasia o ato de transmissão, exagera a identidade do que seria transmitido. Dessa maneira, entender a comunicação como um processo de transmissão conduziria a pensar a informação como algo que o emissor dá (e portanto deixa de ter) e que o receptor passa a ter (e portanto não tinha antes), além de fazer acreditar que a informação transmitida seria a mesma para o emissor e o receptor, ou seja, que teria um sentido definido previamente ao ato de comunicação. Ao contrário, diz Luhmann, é preciso entender que “communication is always a selective occurrence. (...) Comunication is the processing of selection” (Luhmann, 1995:140)4. Para haver comunicação é preciso selecionar uma informação (deixando de lado inúmeras outras), selecionar um modo de apresentar esta informação (também escolhido entre tantos outros possíveis) e finalmente entender esta informação, distinguindo entre informação e declaração (ou pronunciamento, o modo como é apresentada a informação, isto é, “the utterance”). Para Luhmann, portanto,
communications are not ‘living’ units, they are not ‘conscious’ units, they are not ‘actions’. Their unity requires a synthesis of three selections, namely, information, utterance, and understanding (includind misunderstanding). This synthesis is produced by the network of communication (...). Information, utterance, and understanding are aspects that for the system cannot exist independently of the system; they are co-created within the process of communication (Luhmann, 1990:3).

Improbabilidade da comunicação
Outro aspecto importante da teoria da comunicação proposta por Luhmann é a necessidade de levar em conta que em toda comunicação há uma cota de perda, de ininteligibilidade, de produção de resíduos e desperdício, ou seja, há um sem número de problemas e obstruções que a comunicação precisa superar para acontecer. Mais ainda, Luhmann afirma que apesar do fato de nós a experienciarmos e praticarmos todos os dias e não podermos viver sem ela, a comunicação é improvável (Luhmann, 1990: 87). São três as principais improbabilidades que precisam ser superadas para que a comunicação ocorra: a individualidade da consciência humana, da qual decorre que o sentido só pode ser compreendido no contexto, que, para cada indivíduo, consiste basicamente do que sua memória fornece; a improbabilidade de encontrar atenção dos possíveis destinatários para além dos limites das interações interpessoais; e a improbabilidade de sucesso, isto é, da comunicação ser, além de entendida, aceita. Estas três improbabilidades se reforçam mutuamente e funcionam como uma espécie de umbral de desencorajamento (Luhmann, 1995: 157-59; 1990: 87-88).

Symbolically generalized communication media
No entanto, diz Luhmann, sem comunicação não existem sistemas sociais. Assim, as “improbabilities of the communicative process and the way in wich they are overcome and transformed into probabilities regulate the construction of social systems” (Luhmann, 1995: 159). Luhmann propõe a utilização do termo “media” para designar os meios que operam a transformação da improbabilidade de comunicação em probabilidade. Para cada um dos três tipos de improbabilidade de comunicação é possível identificar três diferentes media que transformam o que é improvável no que é provável: a linguagem, os meios de disseminação (escrita, imprensa, meios de difusão eletrônica.) e os “symbolically generalized communication media” (Luhmann, 1995: 160-61), que surgem quando as técnicas de disseminação e de armazenamento da informação tornam possível transcender a interação face a face e comunicar com um público ausente, de proporções desconhecidas e em situações não determinadas (Luhmann, 1990: 91)5. Nestas situações, diz Luhmann, as garantias de sucesso da comunicação dadas por sistemas interacionais precisam ser substituídas ou complementadas por meios ao mesmo tempo mais abstratos e mais específicos. Como exemplos dos “symbolically generalized communication media” Luhmann menciona dinheiro, poder, lei, propriedade, verdade, amor e, ainda, numa forma rudimentar, a arte, a crença religiosa e os valores básicos padronizados.

Diferenciação funcional da sociedade moderna
As diferenças entre estes “simbolically generalized communication media” têm se acentuado com o decorrer da história, conduzindo a uma diferenciação da sociedade moderna em distintos sistemas funcionais:
the various media cover the major branches of the social system that have a civilizing influence and the main subsystems of modern society. This shows the extent to wich, in the course of development, an increase in the possibilities of communications has been conducive to the formation of systems and the differentation of special systems in the fields of economics, politics, religion, science, etc. (Luhmann, 1990: 90-91).
Destacando que a sociedade moderna que tem suas raízes na Europa teve seu desenvolvimento suportado por um número limitado de “symbolically generalized communication media” que se mostraram altamente efetivos – especialmente a verdade científica, o dinheiro, o poder político e a lei – Luhmann adverte que acreditar que todos os domínios funcionais da sociedade possam desenvolver igualmente um meio de comunicação simbolicamente generalizado como resultado de sua diferenciação não passa de “wishful thinking”. Particularmente, diz ele, pode-se perceber que no campo das atividades voltadas para provocar mudanças nos indivíduos – desde a educação até os tratamentos terapêuticos e de reabilitação – não foi desenvolvido nenhum “symbolically generalized communication media”, embora estas atividades constituam um domínio funcional totalmente dependente da comunicação (Luhmann, 1990: 93-94).

Sentido e redução de complexidade
Todos estes sistemas lidam com a questão da redução da complexidade6, nisso baseando a suas semelhanças, enquanto suas diferenças relacionam-se com as possibilidades colocadas por seus modos específicos de operar esta redução de complexidade. Conforme já foi referido, os sistemas sociais têm a comunicação como sua operação básica, através da qual os sistemas se diferenciam do seu ambiente e se diferenciam internamente, aumentando a sua complexidade interna para poder reduzir a complexidade do ambiente a níveis manejáveis pelo sistema. Para Mathis, seguindo a concepção de Luhmann,
a complexidade interna do sistema possibilita através do uso de critérios de relevância a redução da complexidade do seu meio, onde dados relevantes estão sendo selecionados. Esses dados estão sendo processados internamente de forma a gerarem várias alternativas de atuação. Isso faz necessário a seleção interna de uma alternativa de atuação frente ao meio do sistema. Resta agora saber, qual é o critério (ou a força interna) que regula esse procedimento (Mathis, 2001: 6).

Para os sistemas sociais autopoiéticos este critério, que irá definir os limites do sistema e regular a seleção das informações do ambiente, é o sentido que torna-se, assim, “a base da seleção para redução da complexidade do meio e da contingência interna” (Mathis, 2001: 7). O sentido, portanto, é uma estratégia de seleção sob condições de elevada complexidade. Nas palavras de Luhmann, citado por Pintos,
“el sentido es la forma de ordenación de las vivencias humanas, la forma de las premisas para la recepcion de información y la elaboración consciente de la vivencia, y posibilita la comprensión consciente y la reducción de una elevada complejidad (Luhmann apud Pintos: s.d.).
Contudo, o sentido apenas não é suficiente como base da seleção das informações do meio que serão utilizadas pelo sistema, sendo necessária a criação de outros mecanismos regulativos como normas, valores e metas, com o que torna-se possível generalizar um código de expectativas sobre expectativas7, por meio do qual o sistema reduz as margens de incerteza existentes em toda experiência social:
el sentido es precisamente el punto de apoyo para la construcción de la normativa social y cultural, para la definición de los papeles y su posterior institucionalización. En otras palabras, el sentido compartido hace probable lo improbable, esto es, la constitución de sistemas sociales que posibilitan el entendimiento cotidiano (Rodrigues e Arnold, 1996: 2).

Resumindo
Pode-se dizer que, conforme o entendimento de Luhmann, a sociedade é um sistema composto por comunicações que evolui historicamente por meio de diferenciações funcionais que dão origem a sistemas sociais, os quais, por sua vez, se diferenciam internamente originando sistemas parciais, ou sub-sistemas, e assim sucessivamente. A enorme complexidade da sociedade contemporânea só pode ser compreendida e manuseada através de reduções sucessivas. A idéia de redução da complexidade é uma das bases da teoria luhmanniana dos sistemas sociais autopoiéticos, sendo que a função principal dos sistemas sociais específicos, como a religião, a família, as universidades, as empresas, o direito, a ciência, a economia, etc., é justamente de reduzir a complexidade do mundo, de forma que ela possa ser entendida pelas pessoas (ou, na linguagem de Luhmann, pelos sistemas psíquicos). Numa solução paradóxica, para reduzir a complexidade do ambiente os sistemas precisam aumentar a sua própria complexidade através da diferenciação interna e a criação de novos e sucessivos sub-sistemas, para os quais os sistemas funcionais funcionam como ambiente, sendo a sociedade (o sistema societal, que compreende todas as comunicações possíveis) o ambiente de todos os sistemas sociais, isto é, o sistema encompassador de todos os demais tipos de sistemas sociais (sistemas funcionais, interações, organizações).

Um exemplo: o sistema educacional
Pode-se analisar nestes termos, por exemplo, o sistema educacional, que por exigências de suas operações internas e por exigências do aumento da complexidade do sistema societal, também se diferencia internamente em subsistemas aumentando a sua complexidade: sub-sistema de ensino fundamental, sub-sistema de ensino médio, sub-sistema de educação profissional, sub-sistema de educação superior etc. Por sua vez, cada um destes sub-sistemas diferencia-se também em tantos outros sub-sistemas quantos forem necessários para dar conta da complexidade que eles têm por função reduzir. Assim, o sistema da educação superior diferencia-se internamente em tantos outros subsistemas: universidades, centros universitários, unidades isoladas. E o sub-sistema universidade diferencia-se em ainda outros sub-sistemas: universidades públicas, universidades privadas, universidades confessionais, universidades comunitárias, etc., de acordo com o princípio de seletividade acionado pelo observador e pelo sistema ele mesmo, através de suas operações auto-referenciais. Uma universidade específica é um subsistema do subsistema educação superior e, dentro deste, de um dos subsistemas já referidos, podendo ser examinada como um sistema autônomo de tipo organizacional, que por sua vez também diferencia-se internamente em distintos sub-sistemas.


NOTAS
1 "Máquinas não triviais são máquinas auto-referenciais. Elas reagem, sempre, também à sua própria situação, a qual, por sua vez, é o resultado de suas próprias operações anteriores. Dito de outro modo, trata-se de máquinas históricas que, a cada operação, se transformam numa outra máquina. Essas máquinas são notoriamente inconfiáveis, já que, ao mesmo estímulo, de acordo com sua condição, podem produzir reações diferentes." (Luhmann, 1997c: 64).
2 Luhmann elabora mais amplamente estas observações em sua discussão sobre a teoria da ciência, que ele apresenta como um produto tardio da ciência em operação, um subsistema criado através de diferenciação interna no sistema da ciência, com o propósito de auto-observação da ciência (Luhmann, 1995: 478). Referindo-se especificamente a questões metodológicas da sociologia, Luhmann irá propor que esta se preocupe especificamente com a observação de observações, ou seja, com a cibernética de segunda ordem, designação que se refere ao problema da circularidade, exemplificado com o caso clássico da regulação da temperatura de um ambiente por um termostato, no qual o termostato controla a temperatura do ambiente e a temperatura do ambiente controla o termostato: "trata-se de uma relação simétrica, circular. Não é possível constatar nenhuma assimetria de controle no próprio objeto. Somente um observador poderá fixar-se, ele próprio, numa perspectiva. assimétrica; ou seja, na qualidade de técnico ou como habitante de um ambiente, poderá preferir uma à outra direção causal. Se alguém quiser saber qual causalidade 'vale', não deve observar o sistema termostato-ambiente, deve observar o observador ('second order cybernetics')" (Luhmann, 1997c: 65).
3Um exemplo elucidativo disso refere-se ao funcionamento do cérebro, que opera quase sem contato com o ambiente: "ele é, como se diz, codificado de modo indiferente, ou seja: utiliza o mesmo tipo de operação para ver, ouvir, sentir e cheirar" (Luhmann, 1997b: 51), e os órgãos dos sentidos, como os olhos, nariz e ouvidos funcionam como interfaces que permitem o acoplamento entre o ambiente e o sistema operacional do cérebro.
4De acordo com Knodt, “Luhmann defines communication as a synthesis of three selections: information (a selection from a repertoire of referential possibilities), utterance (a selection from a repertoire of intentional acts) and understanding (the observation of the distinction between utterance and information) (Knodt, 1995: xxvii).
5 Isto não implica a necessidade de intencionalidade no processo comunicativo e nem reduz a comunicação ao âmbito lingüístico. Ao contrário, diz Luhmann, “communication is also possible without language, perhaps through laughing, through questioning looks, through dress, through absence, or quite generally and tipically, through deviation from expectations that one can assume are known” (Luhmann, 1995: 151).
6 Conforme Luhmann, uma relação é complexa quando composta de tantos elementos que estes só podem relacionar-se entre si através de um processo de seleção. A complexidade pressupões sempre um procedimento de redução que oferece um modelo de seleção de relações e exclui provisoriamente outras possibilidades.
7Sobre este aspecto, ver as observações de Luhmann a respeito de cultura e semântica (Luhmann, 1995:163) e sobre a estabilização de possibilidades de seleção através da diferença entre sociedade e interação Luhmann, 1995: 433).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 - IZUZQUIZA, Ignacio. "Introducción: la urgencia de una nueva lógica". In LUHMANN, Niklas. Sociedad y sistema: la ambición de la teoría. Barcelona: Paidós Ibérica, 1990, p. 9-39.
2 – KNODT, Eva M. “Foreword”. In LUHMANN, Niklas. Social systems. Stanford: Stanford University Press, 1995, ix-xxxvi.
3 - LUHMANN, Niklas. Essays on self-reference. New York: Columbia University Press, 1990.
4 - __________. Social systems. Stanford: Stanford University Press, 1995.
5 - __________ . "Por que uma 'teoria dos sistemas'?". In: NEVES, Clarissa Eckert Baeta e SAMIOS, Eva Machado Barbosa. Niklas Luhmann, a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997a, p.37-48.
6 - __________. "Novos desenvolvimentos na teoria dos sistemas". In: NEVES, Clarissa Eckert Baeta e SAMIOS, Eva Machado Barbosa. Niklas Luhmann, a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997b, p.49-59.
7 - __________. "Sobre os fundamentos teórico-sistêmicos da teoria da sociedade". In: NEVES, Clarissa Eckert Baeta e SAMIOS, Eva Machado Barbosa. Niklas Luhmann, a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997c, p.60-74.
8 - __________. "O conceito de sociedade". In: NEVES, Clarissa Eckert Baeta e SAMIOS, Eva Machado Barbosa. Niklas Luhmann, a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997d, p.75-91.
9 – MATHIS, Armin. O conceito de sociedade na teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. 2001, www.clacso.edu.ar/~libros/anpocs/mathis.rtf (acessado em agosto 2002).
10 - MATURANA, H. e VARELA, F. A árvore do conhecimento. Campinas: Editorial Psy, 1995.
11 - NEVES, Clarissa Baeta e SAMIOS, Eva M. B. (coords.) Niklas Luhmann: a nova Teoria dos Sistemas. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, Goethe-Institut/ICBA, 1997.
12 – PINTOS, Juan-Luis. La teoria constructivista sistemica de N. Luhmann. Santiago de Compostela, s.d., http://web.usc.es/~jlpintos/articulos/ (acessado em janeiro de 2003).
13 - _________________.Identidades colectivas y procesos de diferenciación. Santiago de Compostela, Noviembre 1995, http://web.usc.es/~jlpintos/identidades/ (acessado em janeiro de 2003).
14 – RODRÍGUEZ, Darío y ARNOLD, Marcelo. Sociedad y Teoría de Sistemas. Santiago do Chile, 1996, http://rehue.csociales.uchile.cl/facu0.htm (acessado em janeiro de 2003).




* Texto de trabalho, produzido a partir de adaptação de capítulo da dissertação de mestrado em Ciências Sociais defendida em abril de 2003 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUCRS, sob a orientação de Emil Sobottka, com o título de A Universidade como organização. Uma abordagem da estrutura organizacional da Universidade de Santa Cruz do Sul sob a perspectiva construtivista-sistêmica de Niklas Luhmann.

** Marcos Moura Baptista dos Santos. Departamento de Ciências Humanas, Universidade de Santa Cruz do Sul.

2 comentários:

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