quarta-feira, 11 de março de 2009

Rotina e criatividade *

Na série de falas voltadas para a reflexão, quatro anos depois, sobre as leituras que foram fundamentais para a elaboração do novo projeto pedagógico da Escolinha de Arte em 2001, havíamos programado para hoje compartilhar com vocês alguns trechos da minha leitura de Humberto Maturana, cujas concepções sobre os fundamentos biológicos do conhecer e da aprendizagem, sobre a educação e sobre a centralidade do respeito, da criatividade, da liberdade e do amor na constituição do ser humano e da sociedade são elementos importantes do embasamento epistemológico do trabalho educativo que a Escolinha de Arte está a fazer.
Antes disso, porém, quero fazer referência a um interessante artigo de Eugênio Mussak na revista Vida Simples em que o autor articula a concepção freudiana da dualidade de nossos impulsos básicos com os últimos avanços das ciências da cognição e da biologia do cérebro para escrever sobre a possibilidade de mudar velhos hábitos a partir de pequenas mudanças no cotidiano feitas todos os dias e a cada dia e o quanto isso pode nos fazer mais felizes. A leitura desse artigo levou-me a retomar algumas reflexões incompletas sobre rotina e criatividade que vou tentar organizar seguindo o roteiro do artigo de Eugênio Mussak para que a gente possa conversar sobre o tema. Diz ele:
 O hábito de fazer as coisas de modo repetitivo e automático é explicado pelo desenvolvimento do cérebro humano.
 Cientistas dizem que a mente humana tem duas partes que se conflitam e se complementam.
 Uma destas partes faz a opção inconsciente pela estabilidade, por deixar tudo como está. Deseja economizar energia, pois para repor a energia gasta precisa buscar alimentos e isso nos expõe ao perigo de morrer. Então procura fazer o básico da sobrevivência, sempre igual.
 A outra parte, mais recente na evolução biológica do humano, busca a atividade, a mudança, o desenvolvimento pessoal.
 Estabilidade: conforto, segurança, estagnação – – fazer sempre igual, rotina
 Desenvolvimento: novidade, coragem, ousadia – – fazer diferente, criar
 A oposição entre segurança e aventura, curiosidade e cautela caracteriza o ser humano, que tem desejos e necessidades que se contrapõem.
 Esta oposição não é um conflito, mas uma dualidade (a condição de coexistência pacífica de princípios opostos: dia e noite, vida e morte, amor e ódio, emoção e razão ...).
Na vida cotidiana estes princípios opostos se manifestam na busca da rotina (por ser conhecida) e da estabilidade (por ser confortável) ao mesmo tempo que desejamos a aventura e a mudança (que alimentam a curiosidade e a emoção).
Freud, em correspondência com Einstein, explica os dois tipos de instintos humanos: o instinto erótico (que tende a preservar e a unir) e o instinto agressivo ou destrutivo (que tende a destruir e a matar), formulando teoricamente a oposição amor e ódio que caracterizaria a dualidade do ser humano. Este modelo dual permite explicar muitas ações humanas, sejam elas benéficas ou não, isto não está em questão agora (Freud não faz juízo de valor entre bem e mal, dizendo que ambos os instintos são essenciais para a existência dos fenômenos da vida). Mas é necessário não permitir que os instintos destrutivos imperem para atender o desejo de dominação. Para isso, diz Freud, o ideal seria transformar este desejo de dominação em um desejo de dominar um saber, tornando a civilização mais voltada para a cultura e o amor.
Freud se referia, neste texto, tanto à guerra quanto a coisas cotidianas, como o relacionamento entre os seres humanos, com suas diferenças e contradições. E principalmente à relação do ser humano consigo mesmo, em suas capacidades opostas, como construir e destruir, estagnar e progredir, querer ir e querer ficar, etc.
Esta dualidade constitutiva do ser humano às vezes é vivida como um conflito, e então pode gerar conflitos e sofrimento para as pessoas, especialmente quando os pólos da dualidade são julgados em termos éticos de certo/errado, bem e mal e se tenta suprimir um deles. Isto costuma ocorrer muito no processo de educação das crianças, tanto no meio das famílias como nas escolas, seja por falta de informação, pré-concepções equivocadas sobre criança e educação ou falta de conhecimento científico sobre o desenvolvimento biológico, psíquico e cognitivo do ser humano. Esta falta de compreensão da dualidade constitutiva do ser humano se expressa na valorização de rotinas repetitivas e rituais na educação das crianças, com a ênfase na repetição e na cópia.
Ao contrário disso, em nossa concepção aqui na Escolinha, é necessário perceber que precisamos tanto da segurança quanto da ousadia e que seremos tão mais saudáveis quanto maior for o equilíbrio entre essas duas prioridades.
É possível, então, rotina e criatividade?
Sim, claro. Possível e necessário. Necessário no processo de educação das crianças e necessário para o equilíbrio de cada ser humano.
Para desenvolver mais isso seria preciso agora aprofundar a discussão dos modelos científicos de funcionamento da mente e do sistema psíquico do ser humano, tanto no campo da epistemologia genética (Piaget) quanto da neurobiologia, das ciências cognitivas, da biologia do conhecer (Maturana) e das teorias sociopoiéticas sobre o sistema educativo (Luhmann). E a discussão científica exige uma terminologia própria, onde cada palavra tem trinta linhas de definição. Não precisam se assustar. Não vou fazer esta discussão aqui. Quero apenas explicitar que ela existe e está por detrás de cada palavra que estou dizendo aqui. Porém, penso que o mesmo tema pode ser tratado com muito mais beleza e concisão por meio da poesia, no caso a poesia da canção Cotidiano, de Chico Buarque:

Cotidiano
Chico Buarque
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor...

Podemos perceber o lado bom da rotina - a segurança, o conforto, a familiaridade – mas percebemos também a vontade de saltar fora, de deixar tudo de lado. Isso é o cotidiano: tanto a rotina quanto a aventura, tanto o tédio pela repetição quanto o medo da novidade.
Agora vamos trazer isso – a necessidade de repetição e a curiosidade pelo desconhecido – para a idade das nossas crianças. Sabendo que é na convivência com os seus adultos que a criança se educa (ao mesmo tempo que os adultos se educam) e que nessa convivência adultos e crianças fazem o mundo vivendo-o (como escreveu Maturana), nós adultos temos a responsabilidade de estimular nas crianças a curiosidade, a busca da aventura, o prazer da descoberta ao mesmo tempo que respeitamos e atendemos suas necessidades de segurança e estabilidade por meio de rotinas e recorrências. Não entender estas necessidades e desejos das crianças pode levar a uma convivência educativa que enfatiza a ruptura entre estabilidade e criatividade, conduzindo ao estabelecimento de normas rígidas, criação e dependência de rituais nos relacionamentos cotidianos, estagnação da curiosidade ou, ao contrário, levando à condutas irresponsáveis, concepções escapistas e recalcamento do princípio de realidade.
Se afirmamos que a criança se educa na convivência com os adultos, é preciso prestar atenção, então, nessa convivência. Uma característica importante da convivência educativa para a criança é a imitação, processo fundamental para a criança entender a realidade em que vive. Mas atenção, imitar não é copiar. Não se trata, na imitação, de uma cópia mecânica da ação do adulto ou de outra criança. Ao contrário, a imitação é uma ação simbólica da criança, através da qual, repetindo o ato do adulto, ela tenta apreender seu significado. Neste sentido a imitação é, na verdade, uma apropriação, mediada pela imaginação, daquilo que a criança quer compreender. Assim, a criança não imita qualquer ato, de forma mecânica, mas, ao imitar, seleciona aquilo que ela busca compreender no mundo adulto. Ao mesmo tempo, como nos lembra Cesar Coll, a imitação, além de ser um mecanismo de aprendizagem e desenvolvimento, é uma forma de expressão da subjetividade da criança.
Outra característica importante da relação que a criança estabelece com o mundo é a repetição. Como podemos observar olhando para nossas crianças, quando elas brincam ou realizam qualquer outra atividade que lhes dá prazer o principal sinal de sua satisfação é fazer de novo, imediatamente após o final da atividade. Como escreveu o Walter Benjamin (outro dos teóricos que nos orientaram na eleboração do projeto pedagógico), “sabemos que para a criança a repetição é a alma do jogo, nada alegra-a mais do que o mais uma vez ... e de fato toda experiência mais profunda deseja insaciavelmente até o final das coisas, repetição e retorno”. Para Benjamin, a repetição permite à criança compreender o mundo, experimentar suas emoções, elaborar suas experiências, refletir sobre o vivido. Os adultos fazem isso através da linguagem, narrando o que viveram. As crianças o fazem pela repetição do gesto ou da ação. Por isso, para elaborar e significar o vivido as crianças precisam ouvir sempre a mesma história, contada do mesmo jeito e com as mesmas palavras, rever os mesmos filmes, cantar as mesmas músicas e repetir exaustivamente jogos e brincadeiras. Até que, de repente, misteriosamente, ela se desinteressa daquilo que lhe despertava tanta emoção e a substitui pela repetição de uma nova atividade. Isso indica que as crianças repetem não apenas aquilo que lhes dá prazer, mas aquilo que ela quer experimentar e compreender. Nas palavras de Gouvea, “através da repetição a criança ordena suas emoções, disciplina seu mundo interno, dando-lhe logicidade”.
Estamos chegando ao final do tempo combinado e é preciso concluir mesmo sem esgotar o assunto para poder entabular agora uma conversa sobre tudo isso: o nosso cotidiano, os nossos hábitos, o significado e a importância da imitação e da repetição para a compreensão do mundo e, sobretudo, sobre a importância da convivência no processo educativo. Depois, se sobrar tempo, poderemos fazer a apresentação das leituras de Maturana como havíamos programado (ou a deixamos para outra oportunidade, dependendo da hora).

Referências:
BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Summus, 1984.
COLL, Cesar. Psicologia da educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999, vol. 1.
GOUVEA, Maria Cristina Soares de. “Infância, sociedade e cultura”. In: CARVALHO, A., SALLES, F. e GUIMARÃES, M. (orgs.) Desenvolvimento e aprendizagem. Belo Horizonte: EdUFMG, 2003, p. 13-29.
MUSSAK, Eugênio. “Só para variar”. Revista Vida Simples, São Paulo: Ed. Abril, julho de 2004.

* Palestra na Escolinha de Arte, para famílias e educadoras.
novembro 2005

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