terça-feira, 3 de março de 2009

Cultura e desenvolvimento regional

Este título apresenta uma dificuldade imensa: articular três conceitos cujo significado são tão carregados de debate e controvérsia: cultura, desenvolvimento e região.
Começando por esta última: região é um conceito no qual se entrecruzam geografia, sociologia, história, economia, entre outros saberes. Eu examino mais detidamente esta questão em um artigo sobre universidade e desenvolvimento regional publicado em 1994(1) do qual recupero aqui apenas alguns tópicos da discussão sobre concepção de região mas sem poder detalhá-los.

Dimensão da região:
macro, meso, micro

Critérios de delimitação da região
aspectos econômicos (região carbonífera, Metade Sul,
aspectos ecológicos (Pantanal, Amazônia,
aspectos geográficos (Região da Serra, Vale do Rio ...,
aspectos políticos (Região Norte, Região Sul, Regiao Sudeste, ...
aspectos étnicos (Região da imigração alemã ou italiana, ...
aspectos de infra-estrutura (rede de estradas, telecomunicações,

Feitas estas rápidas observações, vamos assumir o Vale do Rio Pardo como nosso referencial empírico de região. O que têm em comum os municípios do VRP? O que nos constitui como região? Que instituições existem para garantir a organização da região? Em que sistema social se dão estas articulações e acoplamentos? Quais os aspectos culturais característicos da região do VRP? Estas seriam perguntas que precisaríamos responder para pensar a questão cultural regional.

Do mesmo modo, desenvolvimento é um conceito muito discutido e enfocado sob múltiplas perspectivas, muitas delas contraditórias.
Um primeira discussão passa por distinguir entre desenvolvimento e crescimento econômico.
É preciso retomar a análise das diferentes faces do desenvolvimento e de sua interrelação: desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, desenvolvimento científico e tecnológico.
É preciso perguntar onde ficam e que papel desempenham os aspectos culturais, educacionais, humanos do desenvolvimento.
E isto nos conduz ao conjunto de indicadores que compõem o IDH (índice de desenvolvimento humano) adotado pela ONU e seus diversos organismos, para pensarmos desenvolvimento nos termos de desenvolvimento humano: desenvolvimento educacional, político, cultural
Eu penso que podemos aprender muito com Celso Furtado, um dos maiores intelectuais brasileiros, o economista que foi ministro do planejamento e ministro da cultura. Segundo ele, o verdadeiro desenvolvimento só ocorre quando beneficia o conjunto da sociedade. Desenvolvimento não é crescimento econômico. Crescimento econômico eleva a renda per capita mas não diminui as desigualdades sociais nem elimina a pobreza e a miséria. Superar o subdesenvolvimento requer criatividade política impulsionada pela vontade coletiva. Por isso, diz Furtado, impõe-se formular uma política de desenvolvimento que “conduza a uma crescente homogeneização da nossa sociedade e abra espaço à realização das potencialidades de nossa cultura”(2).

Resta-nos agora pensar sobre o conceito de cultura, como penúltimo passo antes de finalizar com uma tentativa de reflexão sobre a articulação entre cultura e desenvolvimento regional, que é o nosso tema propriamente dito.

O que é Cultura?
Como a cultura tem sido abordada?
Educação e cultura.
Arte e cultura
Economia, política e cultura.
"animador cultural", "produtor cultural", ativista cultural, agente cultural


O que é cultura?
Cultura é um conceito difícil de definir com precisão, existindo mais de trezentas definições catalogadas nos livros de antropologia cultural. Dentre estas, a noção mais aceita entre os antropólogos é a de modo de vida, segundo a qual a cultura corresponde ao modo de vida de um povo ou nação, constituindo e expressando o seu modo de sentir, pensar e agir. Esta concepção – que é bastante adequada por ser sensível às questões da diversidade cultural e da igualdade de direitos para as diferentes culturas - parte dos princípios de que todos os povos ou grupos étnicos possuem cultura e de que nenhuma cultura é superior a outra.
Constituindo o modo de sentir, pensar e agir de uma sociedade ou comunidade, o conceito de cultura como modo de vida aplica-se a todas as práticas, materiais e simbólicas, do grupo ou sociedade em questão, abrangendo os modos de fazer, as práticas corporais, as crenças, os saberes, os gostos, os hábitos e estilos, a concepção de mundo, os conceitos de natureza, de sociedade, de humanidade, de sagrado, de proibido, de obrigatório. Esta concepção engloba ainda, sob o nome de cultura, todas as demais instâncias do sistema social: as relações econômicas, políticas e familiares, as religiões, as artes, as profissões.
Cultura, então, seria o modo específico de sentir, pensar e agir de sociedades e comunidades. O modo de pensar, sentir e agir diante das situações e desafios da existência e das possibilidades de superá-los. Encontraríamos indicações do modo de sentir, pensar e agir em todas as práticas sociais: nas práticas que têm fim predominante de sobrevivência material (produção, circulação, troca e consumo de bens e serviços); nas práticas com fim predominante de sobrevivência política (formas de organização e associação para obter e/ou assegurar direitos ou o poder); nas práticas que têm fim predominante de sobrevivência simbólica (formas de expressão e/ou representação, manifestações artísticas, religiosas, filosóficas, folclóricas)(3).
Nesta acepção, como modo de vida, ou modo de sentir, pensar e agir de um sociedade, a cultura também pode ser pensada como identidade nacional, o que permitiria falar em cultura brasileira, cultura japonesa, etc, e também em termos de identidade regional, o que nos coloca de volta ao conceito de região.
E a noção de cultura como identidade nacional ou como identidade regional traz consigo o conceito de diversidade cultural, que nos permite perceber que as culturas nacionais não são um conjunto monolítico e único. Assim sendo, é fundamental o respeito, a valorização e o convívio harmonioso das diferentes identidades culturais existentes dentro dos territórios nacionais, o que nos coloca diante da noção de direitos culturais.
Conforme a UNESCO, os direitos culturais fazem parte dos direitos humanos e a dimensão cultural é indispensável e estratégica para qualquer projeto de desenvolvimento. Segundo a Declaração Universal da Diversidade Cultural, os indivíduos e grupos devem ter garantidas as condições de criar e difundir suas expressões culturais; o direito à educação e à formação de qualidade que respeite sua identidade cultural; a possibilidade de participar da vida cultural de sua preferência e exercer e fruir suas próprias práticas culturais, desde que respeitados os limites dos direitos humanos. O direito à diferença, e à construção individual e coletiva das identidades através das expressões culturais é elemento fundamental da promoção de uma cultura de paz, de modo que devemos reconhecer e valorizar as nossas diferenças culturais como fator para a coexistência harmoniosa das várias formas possíveis de vivermos como seres humanos.

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Uma outra perspectiva de análise entende que o conceito de cultura deve ser utilizado apenas para designar o campo das manifestações simbólicas, isto é, aquilo que nos distingue dos animais e nos constitui como humanos, a produção de sentido e a atribuição de significados. Restringe-se, portanto, o uso do conceito para referir-se apenas à “produção de fenômenos que contribuem, mediante a representação ou reelaboração simbólica das estruturas materiais, para a compreensão, reprodução ou transformação do sistema social, ou seja, a cultura diz respeito a todas as práticas e instituições dedicadas à administração, renovação e reestruturação do sentido” (Canclini, 1983:29), do que decorre a definição de cultura como os modos de construção e representação simbólica do real:

“mais que um somatório de valores, artefatos, crenças, mitos, rituais, comportamentos etc (...), cada cultura é uma gramática que delineia e gera os elementos que a constituem e lhe são pertinentes, além atribuir sentido às relações entre os mesmos. As culturas não se definem apenas por seus vocabulários, mas principalmente pelas regras que regulam a sintaxe das relações entre os seus elementos” (4).

Este conceito semiótico de cultura parte da definição do ser humano como um animal amarrado a teias de significado que ele mesmo teceu. Estas teias de significado, que orientam e constróem nossas experiências, são a cultura, diz Clifford Geertz(5). Aqui a cultura é pensada como código, linguagem compartilhada com a qual trocamos mensagens utilizando símbolos de diferentes tipos. Qualquer coisa pode tornar-se um símbolo e estes são organizados em sistemas que operam como mapas, conjuntos de regras para o pensamento e para ação. Como sistemas de comunicação que dão sentido à nossa vida as culturas atribuem significados próprios a cada dimensão da existência a que se referem e todas as dimensões de uma cultura (comida, roupa, música, leis, trabalho, moradia, família, dança, cuidados corporais, filosofia) são pequenos conjuntos padronizados que trazem dentro de si algum tipo de informação sobre quem somos, o que pensamos e o que fazemos. Estes conjuntos são estruturalmente acoplados e compõem o sistema de comunicação mais amplo que seria a própria cultura de cada sociedade.
Nesta concepção, como sistema simbólico, restrita às práticas relativas à produção de sentido, a cultura precisa ser aprendida por cada membro do grupo. O processo de aquisição dos princípios da cultura do grupo é tratado pela sociologia através do conceito de socialização, que tem como agências privilegiadas a família, a escola, as igrejas e os meios de comunicação e através do qual aprendemos a fazer parte da sociedade, adquirindo os conteúdos cognitivos e as habilidades necessárias para sobreviver, ser um sujeito normal, crescer, trabalhar, constituir família e manter o processo de reprodução da sociedade e aprendendo também os princípios, valores, crenças e significados que sustentam e explicam as práticas da nossa sociedade.
E com isso voltamos ao conceito de cultura como modo de vida (entendido este como as práticas e as crenças de um dado grupo social). Na verdade, o que se depreende é que distinções como razão prática e razão simbólica, cultura e economia, material e espiritual, são distinções de pouca utlilidade na análise da vida social a menos que sejam muito matizadas.
Como vimos, a redução da amplitude de utilização do conceito de cultura para a dimensão simbólica, da produção de sentido, que coloca no âmbito da cultura as crenças, os valores e as idéias, não implica identificar o cultural com o ideal e o social com o material. Ao contrário, o que se afirma é a impossibilidade de analisar estes diferentes âmbitos de maneira separada: os processos de expressão simbólica (representação ou reelaboração) remetem a estruturas mentais, a operações de reprodução ou transformação social, a práticas e instituições que por mais que se ocupem da cultura, implicam uma certa materialidade (por exemplo, escolas, meios de comunicação, igrejas, museus, academias e centros culturais). Sendo ainda mais claro: não existe produção de sentido que não esteja inserida em estruturas materiais. As práticas sócio-econômicas habituais estão carregadas de sentido simbólico. As práticas culturais possuem sempre um nível sócio-econômico implícito.
Em função deste tipo de compreensão, o MinC assumiu, em suas novas diretrizes para a formulação de um Plano Nacional de Cultura, uma concepção mais ampliada de Cultura, considerando-a em suas três dimensões: 1) enquanto produção simbólica (foco na valorização da diversidade, das expressões e dos valores culturais); 2) enquanto direito e cidadania (foco nas ações de inclusão social por meio da Cultura); e 3) enquanto Economia (foco na geração de empregos e renda, fortalecimento de cadeias produtivas e regulação). Essas dimensões da concepção de cultura passaram a nortear as ações do MinC, como tripé fundamental para o desenvolvimento das novas políticas culturais sob responsabilidade do ministério e devem estender-se de modo a embasar todas as políticas públicas para a cultura em todos os níveis de governo, tendo como parâmetro a promoção do acesso aos meios de fruição, produção e difusão cultural, entendendo a “cultura como produção simbólica, cultura como expressão artística, cultura como direito, ou seja, cultura como parte indissociável do que chamamos cidadania ; e cultura como economia e desenvolvimento”(6).
E com isso chegamos a uma compreensão de cultura como um processo social de produção. A cultura constitui um âmbito específico do sistema social e não pode ser compreendida isoladamente porque tanto está condicionada pelo social, como está inserida em todo fato sócio-econômico: qualquer prática é simultaneamente econômica e simbólica, uma vez que agimos através dela (comunicamos através dela), construímos uma representação que lhe atribui um significado.
A produção da cultura surge das necessidades globais de um sistema social e está condicionada por ele. Falar da cultura como produção supõe levar em consideração os processos produtivos materiais que são necessários para a invenção, o conhecimento ou a representação de alguma coisa. Falar da cultura como produção supõe a consideração de todos os passos de um sistema de produção (cultural ou outro): a produção propriamente dita (elaborar, fazer o produto), a distribuição (espalhar o produto pela área a ele relacionada), a troca (colocar o produto em contato com seu usuário real) e o consumo (a utilização efetiva do produto pelo usuário final). Falar da cultura como produção supõe compreender que existe uma organização material própria para cada produção cultural e que torna possível a sua existência: a universidade para a produção e transmissão do conhecimento, as editoras para a produção de livros, as bibliotecas para a sua circulação, etc.
Isto coloca em evidência a importância da organização, da instituição, da institucionalização da ação cultural. Como instituição, um Centro de Cultura ou um Núcleo de Teatro e Dança é mais permanente, tem mais materialidade, é mais difícil de desmantelar do que um projeto informal ou uma ação espontânea desenvolvida em caráter eventual ou em locais improvisados. Uma instituição é um instrumento, e como tal deve ser reconhecida e utilizada. Claro que o que conta é o indivíduo, em si e no coletivo que o envolve. É o indivíduo e o coletivo que fazem as coisas, não a instituição ou organização. Estas, instituição ou organização, são instrumentos para os indivíduos. Secretarias, Divisões, Departamentos, Núcleos, Centros ou Casas de Cultura, devem ser concebidas como instrumentos necessários, que dão materialidade e permanência a ações muitas muitas vezes intangíveis e imateriais.
E estamos agora falando de ação cultural, de cultura como política pública, de instrumentos e aparatos estatais para a ação cultural. E é preciso ao lado da institucionalização das ações e da construção de equipamentos culturais, cuidar do conteúdo cultural disponibilizado nestes equipamentos. E cuidar da construção dos mecanismos democráticos de participaçao da comunidade nas decisões seja sobre a programação cultural, seja sobre os mecanismos de incentivo à produção cultural local ou sobre as formas de inclusão da dimensão cultural nos projetos de desenvolvimento regional.

Nestes últimos parágrafos venho tentando dirigir o pensamento para a ação cultural a nível local/regional, seja de parte do Estado nos diferentes níveis de governo, seja de parte da comunidade através de suas entidades, instituições e grupos e associações. Seja qual for o seu agente, a ação cultural deve contribuir para um maior acesso por parte de um número maior de pessoas às linguagens da expressão cultural, oferecendo o máximo de meios para que as pessoas possam inventar seus próprios fins. Então, pensando assim,
- por que não criar condições para que todos e cada um, particularmente em conjunto, agrupados num coletivo, possam exprimir-se como bem entenderem?
- por que não criar equipamentos coletivos para a produção, manifestação e fruição da diversidade cultural da cidade?
- por que não elaborar uma programação cultural que atenda à diversidade de demandas culturais de diferentes grupos e setores da população?
- por que não investir na formação de um público capaz de desfrutar e aproveitar de conteúdos culturais os mais variados, desde projeções de filmes e exibições de teatro e música até palestras científicas e filosóficas, mostras de artesanato, oficinas artísticas variadas, espetáculos folclóricos, cursos de culinária regional e exposições de grandes mestres da escultura, da fotografia e das artes plásticas?
- por que não investir em um projeto educacional de formação de produtores culturais?

Se estas perguntas apontam para a necessidade de pensar políticas culturais no nível local – claro que articulando-as com as políticas públicas para a cultura em nível estadual e nacional – impõe-se completá-las com uma nova série:
- como coordenar ações no âmbito regional que articulem cultura e desenvolvimento?
- quais são os entes de atuação regional na nossa região?
- haveria condições políticas para criar um fórum específico, incluindo secretarias e departamentos municipais de cultura e entidades comunitárias com atuação cultural ou de fomento a atividades culturais?
- um Fórum Permanente de Cultura e Desenvolvimento Regional poderia articular e coordenar os esforços para o desenvolvimento cultural da região e para o reconhecimento do papel da cultura no desenvolvimento regional?.
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Por fim seria ainda necessário ao menos bosquejar uma reflexão sobre a ação cultural na sociedade massas (ou sociedade de consumo de massas). Nesse tipo de sociedade há uma confusão entre cultura e lazer, com a criação de uma indústria cultural como indústria do lazer, que oferece lazer sob embalagem de cultura.
Na verdade, a sociedade de massas não quer cultura, mas lazer (a diversão, o entertainment) cujos artigos são consumidos do mesmo modo como esta sociedade consome qualquer outra coisa. Neste processo, os artistas de cinema, de TV e de música são transformados no único assunto de que falam os jornais (celebridades) e todas as questões culturais são apresentadas nos termos de uma crônica mundana (fait-divers, fofocas, crônica social).
É importante denunciar este processo: cultura não é lazer, cultura não é turismo, cultura não é entretenimento, um centro cultural não é um grêmio recreativo.
Para dar conseqüência a essa idéia é preciso perceber que por mais importante que seja, o equipamento cultural (a Casa de Cultura, o Museu, o Centro de Artes) em si não basta. É preciso que a cultura esteja embebida na educação, que a educação se faça com cultura e arte, para a formação de um público sedento por possibilidades de criar e de fruir cultura, um público capaz de perceber os elementos éticos e estéticos seja de uma dança popular da região, seja de uma sinfonia do século 19 ou de um espetáculo teatral contemporâneo.
Mas além da educação formal, a formação de público em condições de expressar-se simbolicamente e de aproveitar a diversidade cultural passa também, e talvez principalmente, por uma radical transformação no modo como são distribuídos e operam os meios de comunicação de massa. Quero destacar aqui a importância cultural das rádios de proximidade (rádios locais, rádios livres, rádios comunitárias) para o desenvolvimento regional (inclusive para o desenvolvimento cultural da região).
E também destaco a importância da produção áudio-visual (fotografia, vídeo, cinema digital) para o desenvolvimento regional, bem como a importância das associações de cidadãos para o desenvolvimento cultural através da criação, operação e apoio a equipamentos culturais - museus, bibliotecas, cineclubes/cinematecas, etc – e a manifestações culturais sejam elas artísticas, filosóficas, científicas ou do modo de vida cotidiano.
Temos de ir ao encontro de uma cultura midiática de exigência de qualidade, o que implica também criar uma opinião pública cada vez mais exigente e esclarecida.
Temos que fazer uma discriminação positiva da notícia e do acontecimento e não o contrário. Temos que ter como prioridade máxima, na nossa agenda informativa, o progresso, o crescimento, o desenvolvimento da região. Temos que ter como prioridade máxima, na nossa agenda informativa, os valores da educação, do empenho, do profissionalismo, da competitividade, da solidariedade, da dignidade e da cidadania. Temos que ir ao encontro dos melhores de nós, na educação, na ciência, nas artes, no conhecimento, na inovação, na política, no meio empresarial, nos movimentos sociais, nos esportes. Temos que ir ao encontro da nossa região.
Os grandes midia nacionais têm uma tendência para o esquecimento, para não falar no que está acontecendo, para não falar daquilo que importa, que nos importa a todos. Das nossas vidas, da nossa formação e educação - e a dos nossos filhos, da nossa cultura, das nossas necessidades imperiosas de desenvolvimento. A agenda dos grandes midia prende-se à pequena política, ao futebol, à catástrofe, à atualidade trágica, a escândalos diversos, à vida das celebridades e ao fait-divers. Um cardápio deplorável, que em grande parte reflete o estado a que chegou o País.
Temos por isso que erradicar esta espécie de peste que se instala no sistema dos média com diversas faces - o sensacionalismo, o jornalismo de esgoto, as histórias vendidas (e/ou inventadas) de acontecimentos irrelevantes (ou inexistentes). O protagonismo da delinquência, os maus exemplos, as emoções, excitações e paixões individuais, a baixaria, têm o seu local próprio: o panfleto oportunista, o tablóide sensacionalista, mas isso não é comunicação e muito menos social.
O papel das rádios locais neste processo de ruptura discursiva com os aspectos negativos do atual status quo e da atual cultura mediática é essencial. Basta que mais e mais algumas das Rádios Livres e/ou Comunitárias existentes (que prefiro chamar de Rádios Locais) consigam fugir à lógica da agenda burocrático-mediática dos media nacionais, e descubram nas suas localidades as forças vivas da região, aqueles que constroém o futuro, os fazedores do desenvolvimento, enfim os homens e mulheres da vida real que nos rodeia.
Na mesma lógica está o papel dos cineclubes e cinematecas: informar sobre a existência, possibilitar o acesso e difundir o gosto por uma produção cinematográfica fora do circuito comercial da distribuição de cinema e vídeo e fora dos esquemas de produção da grande indústria cinematográfica. Sair fora da lógica comercial da política de programação das grandes redes de televisão e de salas de cinema. Fazer da exibição de um filme um processo de reflexão, situando o filme no seu contexto, fazendo ciclos, promovendo palestras e debates, constituindo um acervo de acesso público com obras audiovisuais independentes, fora dos catálogos comerciais, de produção regional, sem esquecer, é claro, das obras clássicas e fundamentais da história do cinema e da recente produção audiovisual em meio digital. A produção local de mídia audio-visual e de fotografia também pode contribuir com o desenvolvimento regional, contando e mostrando a nossa região e as nossas gentes para nós próprios e para o resto do país. E isso vale também para o teatro e os diversos grupos que se mantém teimosamente em muitas cidades, estudando, discutindo e fazendo teatro apesar de todas as dificuldades e preconceitos que persistem.
E se tivermos um setor de produção cultural forte teremos gente trabalhando neste setor, vivendo disso, pagando impostos, consumindo, contratando mais gente. Portanto, o investimento no setor cultural, com disponibilização de fundos e injeção de recursos, pode dar um retorno econômico e social bastante considerável, além dos resultados na preservação, disseminação e ampliação do patrimônio cultural material e imaterial, tangível e intangível da região.
Um exemplo do trabalho possível a partir da universidade foi apresentado durante o Seminário Cultura e Desenvolvimento realizado dentro da programação do Festival de Inverno de Diamantina, promovido pela UFMG. Em palestra no seminário a professora Maria das Dores Pimentel Nogueira, coordenadora do programa Pólos de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha, destacou que o Pólos de Integração, com dez anos de atuação na região, é um dos programas de maior impacto social desenvolvidos pela Universidade e beneficia milhares de habitantes da quarta região mais carente do mundo. O Programa Pólos de Integração é constituído por 73 projetos nas áreas de cultura, educação, geração de ocupação e renda, meio ambiente, saúde e desenvolvimento regional. A professora Maria das Dores destaca a cultura como eixo de articulação do desenvolvimento humano na região do Vale do Jequitinhonha. Segundo ela, o que a UFMG faz, na condição de produtora e guardiã da cultura, é "colocar-se ao lado daquela população, disponibilizando suas competências em diversos setores, tendo em vista o desenvolvimento regional". Nesse sentido, destaca ela, a cultura contribuiu não apenas o fortalecimento da identidade regional, mas também como fonte de geração de renda para as populações carentes, através de seu artesanato.
Porque peguei este exemplo e não um aqui da região, de tantas ações extensionistas desenvolvidas pela Unisc com vistas ao desenvolvimento regional? Porque a UFMG é uma universidade pública estatal e com isso eu posso colocar em discussão a questão da importância do financiamento estatal para a cultura.
A Unisc, a universidade comunitária, as entidades da comunidade, as instituições da sociedade civil, são fundamentais na ação cultural, ms elas não podem substituir o Estado. E não podem principalmente abrir mão de financiamento estatal. E o Estado não pode abrir mão do trabalho conjunto com a comunidade, mas não pode abrir mão de seu papel de "fornecer às pessoas o máximo de meios para a invençao de seus próprios fins". E especialmente quando saltam aos olhos as carências de recursos da população para explorar as riquezas culturais, o Estado não pode deixar de colocar-se ao lado da população, disponibilizando suas competências em diversos setores, tendo em vista o desenvolvimento regional.
E com isso podemos ao menos fazer uma referência ao trabalho do MinC, que baseado numa concepção de cultura que incorpora uma dimensão simbólica e uma dimensão econômica, mais as noções de direitos culturais e de diversidade cultural, tem procurado agir em conjunto com a sociedade civil articulando iniciativas direcionadas à juventude das periferias das cidades ou de regiões com maior acúmulo de situações de risco; ações voltadas para as comunidades negras, indígenas e para outros segmentos sociais; ações de preservação do patrimônio material e imaterial do País; ações de fomento a projetos cinematográficos e audiovisuais; e ações destinadas à ampliação do acesso da população aos bens e serviços culturais, dentre tantas outras que podemos identificar no site do ministério. E ao falar da ação do MinC encerro citando o Ministro da Cultura Gilberto Gil:

“É preciso entender que a Cultura é a estrada pela qual todos os aspectos da sociedade transitam. Tudo se passa e se reflete nessa estrada. Essa é a via única que leva ao grande espetáculo da identidade singular e plural do povo brasileiro. (...) A Cultura é como uma argamassa que permeia todo o tecido institucional e social” Ministro Gilberto Gil, Audiência Pública, 20 de maio de 2003.


Referências
1 Barbaroi nº 0
2 FURTADO, Celso Em busca de novo modelo. São Paulo: Paz e Terra, 2002
3 Falamos de práticas com fins predominantes e não exclusivos porque entendemos que cada prática social é constituída por e expressa simultaneamente os aspectos de sobrevivência material, política e simbólica.
4 RODRIGUES, José Carlos. Antropologia e comunicação: princípios radicais. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 132. Mais adiante na mesma página o autor compara a cultura às regras de jogos: “em certo sentido, poderíamos dizer as culturas são análogas às regras dos jogos: definem quais são os jogadores, quais são os apetrechos e metas do jogo, como se devem computar os pontos, que jogadas são permitidas ou proibidas ...”
5 GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas
6 MinC. Programas e Ações – Pela centralidade da cultura, a revisão do PPA do MinC. http://www.cultura.gov.br

*Palestra realizada na Conferência Municipal de Cultura em Vera Cruz, no dia 11 de agosto de 2005.

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